Seca traz à tona antiga cidade de Rubinéia.

A falta de chuva e a consequente baixa do volume de água do rio Paraná trouxeram à tona as ruínas da antiga Rubinéia, inundada em 1973, após a construção da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira. Restos de construções que ficaram no fundo do rio reapareceram, atraindo visitantes e trazendo lembranças de uma cidade que literalmente precisou “trocar” de lugar. Um bar chamado “Fecha Nunca” pode ser considerado a pedra fundamental daquilo que viria a ser a antiga Rubinéia.
O local era a última parada dos trens da Estrada de Ferro Araraquara, no fim da década de 30. Dali para frente, só com as balsas para fazer a travessia do rio com destino ao Mato Grosso do Sul. Fundada em 3 de outubro de 1951, Rubinéia ganhou este nome graças ao dono das terras, Rubens de Oliveira Camargo. “A outra parte é por causa de dona Néia, mulher de Rubens. É uma homenagem”, conta o secretário de Turismo, Carlos Fernando da Silva.

Escola da antiga Rubinéia, ainda nos anos de 1960: a cidade que a seca não deixa sumir do mapa.

Parada da linha do trem e com economia forte, principalmente por causa da agricultura, a cidade chegou a ter 10 mil habitantes, quase quatro vezes mais do que os atuais 2,8 mil. “Esse número dobra em feriados e finais de semana por causa dos turistas”, destaca o secretário. Cidade tipicamente interiorana, ainda com chão de terra batida, mas já com um hotel e um nascente comércio, a população foi surpreendida quando em 1966 foi anunciada pelo governador Adhemar de Barros a construção da barragem de Ilha Solteira e a consequente inundação das terras de Rubinéia, assim como algumas pequenas partes de Santa Clara d'Oeste, Três Fronteiras e Santa Fé do Sul. “Muita gente não acreditou que a cidade seria realmente alagada”, explica.
A retirada dos moradores da antiga Rubinéia para a nova cidade, construída a três quilômetros de distância, longe do risco de alagamento, aconteceu entre os anos 1971 e 1973 e, apesar de tudo, foi feita com relativa tranquilidade, pela Companhia Energética de São Paulo (Cesp), que pagou todas as indenizações corretamente. “O pagamento foi feito de acordo com o tamanho da área da propriedade que as pessoas tinham”, relata o secretário.

Outro ponto em que ruínas de Rubinéia ficam à mostra devido ao período de estiagem na região.

A continuação do nome de Rubinéia somente aconteceu graças a intervenção do prefeito Osmar Antonio Novaes, pois a ideia era que a cidade fosse transformada em um distrito de Santa Fé do Sul. “Como ele tinha acesso ao governador, usou de influência para que Runinéia continuasse como município”, conta Silva. Hoje em dia as ruínas, quando aparecem (a última vez havia sido em 1998), atraem visitantes, relembrando a rica história de Rubinéia.

Rubens Messaros, 84, foi o segundo prefeito de Rubinéia.Ex-prefeito guarda histórias

Poucas pessoas ainda vivas podem falar que moraram na antiga e na nova Rubinéia. Menos ainda podem se gabar de ter sido prefeito da cidade, antes mesmo de ela mudar de lugar. Esse é o caso do aposentado Rubens Messaros, de 84 anos, chefe do Executivo da cidade entre 1968 e 1972 e o segundo prefeito da história do município. Natural de Uchôa, na região de Rio Preto, Messaros se mudou para Rubinéia em 1954, aos 24 anos, atraído pela então chegada da estrada de ferro. “Montei uma oficina para caminhões e carros”, conta Messaros, que lembra das histórias da época como se ainda estivessem acontecendo.
Dono de uma máquina de arroz e conhecido entre os moradores, ele disse que foi colocado na Prefeitura, mesmo a contragosto. “Não sou político e não gosto de política”, conta o idoso, que mora a poucos metros da praça principal da cidade. Ele conta que poucas pessoas acreditavam na mudança e até a Igreja Católica local recusou à doação de 10 alqueires compradas pelo então prefeito. “Disseram que ninguém iria morar aqui. Resolvi dar as terras para os crentes (evangélicos), após eles me pedirem, o que fez o padre mudar de opinião”, recorda Messaros. Para ele, a mudança atrapalhou o crescimento de Rubinéia, que perdeu muitos moradores e viu muitas terras, especialmente plantações de arroz, ficarem inundadas. “Muita gente achou que não iria virar nada e foi embora”, diz o ex-prefeito.

Poetas

Rubinéia era conhecida como a “Cidade dos Poetas”por levar em algumas de suas ruas o nome de grande poetas e escritores brasileiros. O mineiro Carlos Drummond de Andrade, após a inundação, homenageou a população de Rubinéia com o poema “Os Submersos”.

Fonte: Diario Web.

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