Asfalto cede e fecha tráfego na Euclides da Cunha.

Burado no asfalto da Euclides da Ciha.Duplicado há menos de dois anos, como parte de uma obra que consumiu R$ 800 milhões dos cofres públicos, o trecho da rodovia Euclides da Cunha (SP-320) amanheceu interditado ontem, perto de Tanabi. Duas crateras, que se abriram no km 479 mais 300 metros, interditaram as duas pistas no sentido Votuporanga a Mirassol. O desvio no local, que nem mesmo foi inaugurado pelo governador Geraldo Alckmin, obriga os motoristas a aumentar a viagem até Rio Preto em 30 quilômetros.

Uma das crateras mede em torno de 5 metros de largura por 3 metros de comprimento e a outra, 4 metros de largura por 4 metros de comprimento. Elas surgiram em cima de uma galeria de água, que pode não ter suportado o volume de chuva da noite anterior. De acordo com um técnico do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) que inspecionou a área, a erosão danificou 21 metros quadrados da pista. O trânsito foi bloqueado 3 quilômetros antes da erosão pela Polícia Rodoviária Estadual, por questões de segurança, no trevo de acesso à base da Aeronáutica (Cindacta-1), de onde era possível fazer o retorno.

Policiais passaram o dia orientando os motoristas para acessar a rodovia Péricles Belini (SP-461) em Votuporanga e seguissem até Nhandeara. Dali é preciso seguir 35 quilômetros até o trevo da rodovia Feliciano Salles Cunha (SP-310), para então prosseguir sentido Mirassol. O condutor que sai de Votuporanga com destino a Rio Preto percorre em dias normais 82 quilômetros, mas com o desvio tem que andar 30 quilômetros a mais.

Susto

As crateras, por pouco, não causaram acidente logo no início da da manhã de ontem. Por volta das 5h30, dois caminhões carregados de leite e três veículos de passeio passavam pelo trecho de Tanabi assim que o asfalto se rompeu. Ninguém se feriu com gravidade. Em um dos carros, quatro pessoas ficaram levemente feridas.

Foram atendidas no pronto-socorro de Tanabi e liberadas. Um dos caminhões seguiu viagem e o outro teve o eixo e dois paralamas quebrados, além de seis pneus furados. Ambos são de Lagoa Santa (GO) e seguiam para Catanduva. A carga de 37,3 mil litros de leite foi transferida para outro caminhão, para seguir viagem.

Caminhão avariado na Euclides da Cunha.O motorista do veículo mais danificado conta, emocionado, como fez para evitar o acidente. “Eu joguei o caminhão para o lado esquerdo da pista, onde não havia buraco ainda. Tudo tremeu no caminhão. Graças a Deus, eu estava devagar, porque se estivesse um pouco mais rápido iria acontecer o pior. Atrás de mim vinha um carro e na frente um caminhão”, disse Jamil Parreira de Freitas, 53 anos. O bloqueio forçado causou transtornos aos motoristas e indignação naqueles que voltavam do feriado prolongado. “Uma obra nova desta e já com problemas é a prova de que o nosso dinheiro é muito mal gasto”, afirmou o empresário Artur Dias de Assunção.

Em nota, o DER informou que o problema foi causado pela forte chuva que caiu na região e “provocou o solapamento em uma galeria (erosão)”. A assessoria de imprensa do departamento disse ainda que a equipe de conservação do DER estava na região avaliando a possibilidade de fazer um reparo para liberar a pista ainda ontem. Porém, até o fechamento desta edição às 18h30, o reparo não havia sido concluído e o trecho permanecia interditado.

Responsável pela obra de duplicação da SP-320 no lote 1 - entre Bálsamo e Tanabi - pela qual recebeu R$ 77,7 milhões, a Constroeste informou, por meio de nota, que a obra foi entregue há um ano e meio e que, após a entrega, a manutenção é de responsabilidade do DER. A assessoria da empresa afirmou ainda que “não há problemas na obra” e que a região já registrou chuvas mais intensas em outros períodos sem prejuízos.

Problemas

Mesmo antes de a duplicação ser concluída, há um ano, problemas estruturais foram detectados na rodovia. Buracos e ondulações foram verificados em diversos trechos, conforme reportagem da época feita pelo Diário, que percorreu os 82 km entre Rio Preto e Votuporanga. A obra, em sua extensão total (191 km entre Bálsamo e Rubineia), custou R$ 800 milhões.

Rota alternativa entre Votuporanga e São José Rio Preto.

Servidor alertou para risco de problemas na Euclides.

Reparo na Euclides da Cunha.Delação feita em 2012 ao Ministério Público de Rio Preto por pessoa que se identifica como servidor do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) já alertava para o risco de “problemas sérios” nas obras de duplicação da rodovia Euclides da Cunha (SP-320), principalmente no trecho entre Cosmorama e Tanabi, onde na última terça-feira crateras bloquearam uma das pistas.

Ao Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Rio Preto, o servidor, que não teve o nome revelado, disse que era responsável pela fiscalização da obra. E que detectou “modificação” no projeto original. “O projeto de execução da base (camada final antes de receber a capa asfáltica) foi modificado a toque de caixa passando de solo cimento para solo brita com adição de cimento”, disse o servidor, que relatou ter sido “afastado da função por cobrar a empreiteira.”

Apesar de alertar o risco para toda a obra, “de ponta a ponta”, o fiscal citou especificamente o trecho de Tanabi, cujo lote foi vencido pela Constroeste por cerca de R$ 77,5 milhões. “Relato onde estava trabalhando. Trecho Cosmorama Tanabi, sendo a executora Constroeste. Informo que o que está sendo feito é absurdo. Tenham certeza de que em três ou quatro anos esta pista vai ser problema sério”, disse ele.

Por envolver possivelmente autoridades, o depoimento do servidor foi remetido pelo promotor João Santa Terra, em 28 de junho de 2012, para a procuradora de Justiça Jaqueline Lorenzetti Martinelli, da Câmara Especializada em Crimes Praticados por Prefeitos. Ontem, a Procuradoria afirmou apenas que o caso segue em análise e trâmite pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, dentro da ação que desmantelou a chamada Máfia do Asfalto na região noroeste do Estado. Santa Terra não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Ao todo, a duplicação entre Mirassol e Santa Fé do Sul consumiu cerca de R$ 1 bilhão dos cofres públicos e antes mesmo de ser concluída por inteiro já apresenta série de problemas, como previsto pelo servidor há quase dois anos. Ao lado da Constroeste, que venceu a disputa de três lotes, a Construtora Conter ficou responsável pelos outros cinco lotes.

Além das crateras que interromperam o trânsito na pista sentido Votuporanga na última terça-feira, a pista registra longos trechos de ondulação. Buracos também já apareceram e trechos já tiveram de ser refeitos. O DER informou ontem que o trecho atingido pelos buracos já foram recuperados e teriam sido causados por entupimento de escoadouros de água da chuva.

Outro lado

A Constroeste negou ontem que tenha utilizado materiais de baixa qualidade ou alterado o projeto em relação ao original. “Os trechos executados pela Constroeste são os que apresentam menos problemas e com maior número de obras de arte. O asfalto é de boa qualidade e sem buracos”, afirmou a empreiteira por meio de assessoria.

A empresa diz ainda que o DER “atestou” a qualidade do serviço e que os buracos que apareceram na terça-feira são resultado de “roçada cujo mato obstruiu os dutos de escoamento de água, que não tinha como circular a pesou sobre a pista. Funcionou como uma rolha. O próprio DER não aponta culpa da empresa, que sequer foi acionada para fazer a recuperação. Foi um fato isolado.”

Acusação fala em ‘preços muito baixos’

Na delação prestada ao Gaeco de Rio Preto, o servidor do DER que ficou no anonimato acusa uma suposta redução excessiva no preço pedido pela Constroeste para o comprometimento da qualidade da obra. “Esta obra foi contratada com desconto muito acima do normal pelas empresas que estão executando”, afirma.

“O que se percebe é que as empresas na hora da licitação fizeram besteira em dar preços baixos e estão revertendo a situação baixando a qualidade e com a conivência de que teria que fiscalizar.” Em outro trecho, o então responsável pela fiscalização diz que “a quantidade de cimento e de brita estão longe do que deveriam ser. Soltaram a corda, as empresas estão voando livre e alerto também no que tange à espessura da capa asfáltica”

Recuperado

Um dia depois de os buracos terem interrompido uma das pistas da Euclides, na altura de Tanabi, os consertos foram providenciados. Segundo o DER, a pista já tinha sido liberada, por volta das 20 horas da terça-feira para o trânsito de veículos.

A Constroeste diz que a maior prova de que não teve responsabilidade no episódio foi o fato de não ter sido acionada pelo DER para os reparos, já que a obra ainda estaria na garantia. Além disso, a empresa afirma que cumpriu todos os prazos e nega a acusação de ter jogado os preços para baixo na tentativa de vencer a licitação.

Servidor alertou para risco de problemas na Euclides da Cunha.

Fonte: Diario da Região.

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